Antropóloga investiga em livro o PCC, a maior facção criminosa do país

21 de outubro de 2012

“Bonde”, “cagueta” e “perreco” são algumas das palavras repetidas por presos nas conversas com a antropóloga Karina Biondi. Elas estão reunidas nas últimas páginas de Junto e misturado — Uma etnografia do PCC, livro lançado pela Editora Terceiro Nome que investiga a principal facção criminosa do Brasil, o PCC (Primeiro Comando da Capital). Foram quase seis anos de uma “pesquisa pouco ortodoxa”, iniciada após a prisão do marido, no início de 2003.

 

São homens divididos entre Justiças — a divina, a humana e a estatal, mas que paradoxalmente não respondem a uma legislação interna. Segundo Karina, o PCC é um grupo que não carrega um Código, com leis e punições. Na verdade, o que ocorre é um “debate incessante sobre ‘o que é o certo’ e sobre como conduzir sua existência ‘pelo certo’”. Para os presos, não existem leis internas ou julgamentos, mas há um regulamento que prevê recomendações para nortear as ações dos “irmãos” do Comando; se tivesse que usar uma metáfora para explicar essa adaptação, a antropóloga falaria em “jurisprudência”.

O assunto delicado não intimida Karina. Incisiva em suas respostas durante a entrevista concedida a Última Instância, a autora fala sobre como surgiu a ideia para uma pesquisa dessa complexidade, a importância da facção perante a sociedade brasileira, o significado de Justiça para os criminosos do PCC e como eles mesmos criaram um método próprio para garantir o funcionamento da organização.

Além disso, a antropóloga relembra a transformação sofrida pelo Primeiro Comando ao longo de sua história e revela como as questões internas podem alterar o dia a dia de uma penitenciária.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Última Instância – O PCC (Primeiro Comando da Capital) é a principal organização criminosa do país. Como surgiu a oportunidade de realizar uma pesquisa com esse tema?

Karina Biondi – Meu marido foi preso em 2003, quando eu cursava graduação em Ciências Sociais na USP (Universidade de São Paulo). Em uma das visitas [na prisão], me veio a ideia de aproveitar esse acesso para elaborar um projeto de pesquisa, que chegou a receber o primeiro prêmio de Antropologia e Direitos Humanos para graduação. Essa conquista me incentivou a dar continuidade à pesquisa na pós-graduação, que resultou nesse livro.

Última Instância – Em algum momento, a pesquisa ficou perigosa?

Karina Biondi – Nunca sofri nenhum tipo de controle. Na verdade, ninguém nunca pareceu dar muita importância à pesquisa. Mas durante a realização, vivi momentos que me fizeram sentir muito medo, como o que envolveu uma tentativa de fuga. Apesar da tensão envolvida, essa experiência e os relatos posteriores a esse acontecimento foram muito importantes para o desenvolvimento de diversas das reflexões que faço.  

Última Instância – Para as pessoas que não têm esse tipo de acesso, essa proximidade à facção, é difícil imaginar as regras de funcionamento. Como se dá a regulação interna feita pelo PCC? Existem julgamentos e punições de membros? Existem leis?

Karina Biondi – Não existem julgamentos no PCC, já que ele não opera no registro jurídico. Ao vermos o funcionamento do PCC, é tentador chamar as orientações e os procedimentos que encontramos de leis ou regras. Mas estaríamos, com isso, fazendo um espelhamento da forma social que conhecemos. Procurei deixar essa metáfora de lado e levar a descrição adiante. O que encontrei foi uma forma social que não funciona na chave jurídica, onde não existe um código ou leis e punições prescritas àqueles que as transgridem. O que existe é um debate incessante sobre “o que é o certo” e sobre como conduzir suas existências “pelo certo”. Se fosse para usar uma metáfora, eu diria que “jurisprudência” funciona melhor do que “lei”. O PCC não opera na chave da lei ou da regra. Ele não se conforma a um registro jurídico, onde para qualquer regra há uma punição.

Última Instância – E como funciona essa regulação por parte do PCC? Ela se relaciona com a Justiça?

Karina Biondi – Não existem leis, mas podemos dizer que existem algumas orientações ou recomendações que resultam de amplos debates. O consumo de crack no interior das cadeias, por exemplo, não é evitado por temor a sanções legais. Ele é evitado porque, segundo os prisioneiros, o crack é uma máquina de produzir “nóias”, ele destrói a dignidade humana e produz morte. Em outras palavras, o crack é uma ameaça à “paz entre ladrões”. Nunca ouvi ninguém questionando a proibição do crack e tampouco vi alguém deixando de seguir essa orientação.

Durante o trabalho de campo, me deparei com outras formulações muito interessantes para pensar essa relação entre o PCC e as leis da Justiça. Durante uma rebelião, enquanto mantinha funcionários como reféns, um preso advertiu outro por ter quebrado o registro de água. Perguntei o motivo da advertência e ele me respondeu: “porque é crime, é dano ao patrimônio”. Não há uma regra no PCC que impeça algum preso de quebrar o registro de água durante uma rebelião. No entanto, esta ação é avaliada circunstancialmente. De um lado, ao afirmar que essa ação é crime, o preso estava dizendo que ela poderia resultar em mais tempo de pena aos rebelados. De outro, para o preso que quebrou o registro, o que contava era o benefício que seria garantido para toda a população daquela prisão, pois a administração não poderia mais fechar o registro, como vinha fazendo. Ambos tinham argumentos para sustentar que estavam certos, independente da conformação do ato à lei. Ou seja, a lei poderia ser um fator importante, mas também poderia ser considerada menos importante do que as condições de higiene no cotidiano daquela prisão.

Última Instância – Então o que é a Justiça para os membros do PCC?

Karina Biondi – Existem várias Justiças a que os relacionados ao PCC se referem. Entre elas, a Justiça presente em seu lema, a Justiça Divina, a Justiça dos Homens. Durante a minha pesquisa, não foquei na avaliação que eles fazem da Justiça Estatal, mas são bastante recorrentes as referências à Justiça como aquela que pune os pobres, como um instrumento de opressão do Estado.

Última Instância – De alguma forma um dos papéis do PCC seria o de intermediar a relação de presos com a Justiça? Não diretamente, por ser uma organização ilegal, mas com pressões sutis.

Karina Biondi – Acredito que seria necessário estudar as instituições Judiciárias para ver que tipos de pressões recaem sobre elas. Mas meus dados revelam que, por meio de pressões mais ou menos sutis, o PCC, de certa forma, faz essa intermediação entre presos e o aparelho burocrático das instituições prisionais. A legislação que rege o funcionamento das unidades prisionais de São Paulo concede grande liberdade ao dirigente de cada unidade. Assim, as condições para cumprimento da pena só podem ser negociadas com ele.

Última Instância – Atualmente, quantos são os presos vinculados ao PCC?

Karina Biondi – Não vejo o PCC como o resultado da soma de seus membros, os chamados “irmãos”. Já que o Comando não é o que costumamos chamar de “grupo”, que seria formado por membros recrutados. Por isso, sua presença em uma prisão não depende da existência de “irmãos” ali. Mas não há contradição. O problema é pensar em termos de “vínculo”, o que pressupõe a existência de duas unidades totais:presos e PCC. O Comando existe como uma força que atravessa esses presos e, ao mesmo tempo, é atualizada por eles. Essa forma de existência não requer a ligação entre membros que seriam vinculados. De fato, os “irmãos” sequer conhecem todos os outros “irmãos”, esta é uma informação que nem eles próprios têm.

Última Instância – Existe algum tipo de relação entre as ações do PCC e a diminuição dos homicídios dentro das penitenciárias? E fora?

Karina Biondi – Nessa questão dos homicídios dentro e fora das penitenciárias, as  informações que eu tenho foram os próprios prisioneiros e moradores das periferias que me disseram. Uma das orientações para as quais estão voltadas as ações do PCC é o que chamam de “paz entre ladrões”. A ideia é que, unindo-se, poderiam resistir ou lutar contra o que consideram “abusos” do sistema penitenciário. Nesse sentido, procura-se evitar práticas que levariam a litígios e, quando eles aparecem, busca-se solucioná-los de forma não violenta.

Essas práticas fizeram diminuir o número de mortes como soluções para esses litígios entre “ladrões”. Não só os prisioneiros, mas muitos moradores de favelas atribuem ao PCC a responsabilidade pela queda do número de homicídios. O “não pode mais matar” (nas “ruas”) me foi dito pela primeira vez em meados de 2006, por prisioneiros. Logo depois, ouvi de uma moradora de uma favela de São Paulo que, se antes ela se deparava diariamente com um cadáver na porta de sua casa, hoje, “graças ao PCC, isso não acontece mais”.

As informações sobre a influência do PCC na diminuição do número de homicídios no Estado de São Paulo, que antes apareciam para mim apenas em relatos de experiências como essa, foram reforçadas pelas estatísticas oficiais. Se há outros motivos para esta queda, não os encontrei nos relatos daqueles que vivem nas áreas onde ocorrem a maioria dos homicídios.

Última Instância – Você poderia citar um acontecimento crucial na história da facção?

Karina Biondi - O acontecimento que mais impactou o PCC foi a adição da “Igualdade” ao lema “Paz, Justiça e Liberdade”. Com isso, o Comando sofreu profundas transformações (que não param de se transformar) e terminou por abandonar a formação hierárquica piramidal que possuía. Essas transformações aparecem em todos os âmbitos das experiências prisionais. O que o preso quer dizer com “ninguém é mais do que ninguém”, “ninguém é obrigado a nada”, “é de igual”?

Não basta ouvir o que eles têm a dizer, é preciso levá-los a sério. Foi isso que procurei fazer em minha dissertação e que permitiu enxergar no PCC uma formação que, por um lado, não pode ser caracterizada como hierárquica, mas, por outro, tem a hierarquia como um fantasma que não para de aparecer em seu interior. Os prisioneiros tecem reflexões riquíssimas a esse respeito, reflexões que são indissociáveis de suas próprias experiências cotidianas e da constituição do PCC hoje.

Última Instância – E qual é o papel o grupo representa frente à sociedade? E para os membros?

Karina Biondi – Entre os que estão relacionados ao PCC, o grupo aparece como uma ética, uma forma de conduzir suas existências. Nas prisões, ele aparece também como uma instância reguladora das relações entre presos e destes com a administração das unidades prisionais. Por isso, o PCC representa grande responsabilidade aos seus membros. Quanto à sociedade, não consigo vê-la como uma totalidade coesa a ponto de tecer uma única representação acerca do PCC ou a ponto do PCC, que já não é uma totalidade, poder  representar um papel.

Currais eleitorais

3 de novembro de 2011

Autor: João de Scantimburgo

Quem teve oportunidade de viver ao menos uma parte do período dominado pelo Partido Republicano Paulista (PRP) sabe o que é curral eleitoral . Em poucas palavras, o curral eleitoral é uma forma de reunir eleitores despersonalizados, dando-lhes a personalidade do partido e, assim, a filiação partidária. Foram famosos no período do PRP esses currais , onde os políticos reuniam seus abnegados eleitores e candidatos a eleitores, de forma a fazer permanentemente um sexto sentido político, que pesa nas eleições a favor do candidato submetido ao curral eleitoral.

Com essa fórmula, o PRP e seus congêneres em outros estados pôde manter-se no poder durante muitos anos, vindo-lhes fazer sombra, somente o Partido Democrático de São Paulo (PD), nascido na casa do senador Antônio Prado, de quem fez excelente obra jornalística sobre o que foi o PRP. Os currais eleitorais de então eram norma na política fundada nos grêmios eleitorais e desapareceram com o desaparecimento do PRP.

Estamos, sabendo agora que no Rio de Janeiro surgem novos currais eleitorais , dando-lhes atualidade nos últimos pleitos, como leio n’ O Globo de ontem. Diz a notícia que a PF vai apurar a formação de currais eleitorais do crime . Entenda-se que o apoio ostensivo aos eleitores será feito pelos criminosos que atuam nas favelas. Não são, portanto, os currais como eram conhecidos no tempo do PRP, mas, sim, currais eleitorais do crime , obrigando os candidatos ao mandato político à obediência ao criminoso que lhe deu apoio.

Na realidade, os currais eleitorais sempre existiram (com outros nomes), e o significado era o mesmo; quer dizer, atuavam reunindo o eleitorado para a formação dos líderes eleitorais que davam cabo das ordens recebidas dos maiorais do crime. Separamos essa situação da situação carioca, onde predominou, sempre, o domínio da favela sobre o político. Por currais eleitorais entendemos, portanto, a presença de candidatos no curral no dia do pleito e a indisputada opinião do candidato pelo criminoso que lhe deu apoio e a quem ele deve obediência, se quiser ser reeleito.

Vê-se que era fácil manter um curral eleitoral , onde a obediência aos mandões do crime era absoluta, e no Rio, onde as favelas predominam e dão as diretrizes a seguir aos obedientes ao curral.

Fonte: Academia Brasileira de Letras.

Fábrica de maus professores

30 de outubro de 2011

Uma das maiores especialistas em ensino superior brasileiro, a antropóloga Eunice Durham não tem dúvida: os cursos de pedagogia perpetuam o péssimo ensino nas escolas

Hoje há poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom nível sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antropóloga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o mérito de tratar do assunto com rara objetividade.

Seu trabalho representa um avanço, também, porque mostra, com clareza, como as universidades têm relação direta com a má qualidade do ensino oferecido nas escolas do país. Ela diz: “Os cursos de pedagogia são incapazes de formar bons professores”.

Ex-secretária de política educacional do Ministério da Educação (MEC) no governo Fernando Henrique, Eunice é do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas, da Universidade de São Paulo – o­nde ingressou como professora há cinqüenta anos.

Leia a entrevista:

- Sua pesquisa mostra que as faculdades de pedagogia estão na raiz do mau ensino nas escolas brasileiras. Como?

As faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e ensinar a matéria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limitações elementares: não conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos científicos de média complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se livrado delas. Minha pesquisa aponta as causas. A primeira, sem dúvida, é a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a prática. Segundo essa corrente acadêmica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula é inferior a reflexões supostamente mais nobres.

- Essa filosofia é assumida abertamente pelas faculdades de pedagogia?

O objetivo declarado dos cursos é ensinar os candidatos a professor a aplicar conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos à educação. Pretensão alheia às necessidades reais das escolas – e absurda diante de estudantes universitários tão pouco escolarizados.

- O que, exatamente, se ensina aos futuros professores?

Fiz uma análise detalhada das diretrizes oficiais para os cursos de pedagogia. Ali é possível constatar, com números, o que já se observa na prática. Entre catorze artigos, catorze parágrafos e 38 incisos, apenas dois itens se referem ao trabalho do professor em sala de aula. Esse parece um assunto secundário, menos relevante do que a ideologia atrasada que domina as faculdades de pedagogia.

- Como essa ideologia se manifesta?

Por exemplo, na bibliografia adotada nesses cursos, circunscrita a autores da esquerda pedagógica. Eles confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educação. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dialética, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia.

- Quais os efeitos disso na escola?

Quando chegam às escolas para ensinar, muitos dos novatos apenas repetem esses bordões. Eles não sabem nem como começar a executar suas tarefas mais básicas. A situação se agrava com o fato de os professores, de modo geral, não admitirem o óbvio: o ensino no Brasil é ainda tão ruim, em parte, porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função.

- Por que os professores são tão pouco autocríticos?

Eles são corporativistas ao extremo. Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. É um cenário preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino – e, conseqüentemente, da responsabilidade. Nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba.

- Como os sindicatos prejudicam a sala de aula?

Está suficientemente claro que a ação fundamental desses movimentos é garantir direitos corporativos, e não o bom ensino. Entenda-se por isso: lutar por greves, aumentos de salário e faltas ao trabalho sem nenhuma espécie de punição. O absenteísmo dos professores é, afinal, uma das pragas da escola pública brasileira. O índice de ausências é escandaloso. Um professor falta, em média, um mês de trabalho por ano e, o pior, não perde um centavo por isso. Cenário de atraso num país em que é urgente fazer a educação avançar. Combater o corporativismo dos professores e aprimorar os cursos de pedagogia, portanto, são duas medidas essenciais à melhora dos indicadores de ensino.

- A senhora estende suas críticas ao restante da universidade pública?

Há dois fenômenos distintos nas instituições públicas. O primeiro é o dos cursos de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, que, embora ainda atrás daqueles oferecidos em países desenvolvidos, estão sendo capazes de fazer o que é esperado deles: absorver novos conhecimentos, conseguir aplicá-los e contribuir para sua evolução. Nessas áreas, começa a surgir uma relação mais estreita entre as universidades e o mercado de trabalho. Algo que, segundo já foi suficientemente mensurado, é necessário ao avanço de qualquer país. A outra realidade da universidade pública a que me refiro é a das ciências humanas. Área que hoje, no Brasil, está prejudicada pela ideologia e pelo excesso de críticas vazias. Nada disso contribui para elevar o nível da pesquisa acadêmica.

- Um estudo da OCDE (organização que reúne os países mais industrializados) mostra que o custo de um universitário no Brasil está entre os mais altos do mundo – e o país responde por apenas 2% das citações nas melhores revistas científicas. Como a senhora explica essa ineficiência?

Sem dúvida, poderíamos fazer o mesmo, ou mais, sem consumir tanto dinheiro do governo. O problema é que as universidades públicas brasileiras são pessimamente administradas. Sua versão de democracia, profundamente assembleísta, só ajuda a aumentar a burocracia e os gastos públicos. Essa é uma situação que piorou, sobretudo, no período de abertura política, na década de 80, quando, na universidade, democratização se tornou sinônimo de formação de conselhos e multiplicação de instâncias. Na prática, tantas são as alçadas e as exigências burocráticas que, parece inverossímil, um pesquisador com uma boa quantia de dinheiro na mão passa mais tempo envolvido com prestação de contas do que com sua investigação científica. Para agravar a situação, os maus profissionais não podem ser demitidos. Defino a universidade pública como a antítese de uma empresa bem montada.

- Muita gente defende a expansão das universidades públicas. E a senhora?

Sou contra. Nos países o­nde o ensino superior funciona, apenas um grupo reduzido de instituições concentra a maior parte da pesquisa acadêmica, e as demais miram, basicamente, os cursos de graduação. O Brasil, ao contrário, sempre volta à idéia de expandir esse modelo de universidade. É um erro. Estou convicta de que já temos faculdades públicas em número suficiente para atender aqueles alunos que podem de fato vir a se tornar Ph.Ds. ou profissionais altamente qualificados. Estes são, naturalmente, uma minoria. Isso não tem nada a ver com o fato de o Brasil ser uma nação em desenvolvimento. É exatamente assim nos outros países.

- As faculdades particulares são uma boa opção para os outros estudantes?

Freqüentemente, não. Aqui vale a pena chamar a atenção para um ponto: os cursos técnicos de ensino superior, ainda desconhecidos da maioria dos brasileiros, formam gente mais capacitada para o mercado de trabalho do que uma faculdade particular de ensino ruim. Esses cursos são mais curtos e menos pretensiosos, mas conseguem algo que muita universidade não faz: preparar para o mercado de trabalho. É estranho como, no meio acadêmico, uma formação voltada para as necessidades das empresas ainda soa como pecado. As universidades dizem, sem nenhum constrangimento, preferir “formar cidadãos”. Cabe perguntar: o que o cidadão vai fazer da vida se ele não puder se inserir no mercado de trabalho?

- Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos alunos freqüentam essas escolas técnicas. No Brasil, são apenas 9%. Por quê?

Sempre houve preconceito no Brasil em relação a qualquer coisa que lembrasse o trabalho manual, caso desses cursos. Vejo, no entanto, uma melhora no conceito que se tem das escolas técnicas, o que se manifesta no aumento da procura. O fato concreto é que elas têm conseguido se adaptar às demandas reais da economia. Daí 95% das pessoas, em média, saírem formadas com emprego garantido. O mercado, afinal, não precisa apenas de pessoas pós-graduadas em letras que sejam peritas em crítica literária ou de estatísticos aptos a desenvolver grandes sistemas. É simples, mas só o Brasil, vítima de certa arrogância, parece ainda não ter entendido a lição.

- Faculdades particulares de baixa qualidade são, então, pura perda de tempo?

Essas faculdades têm o foco nos estudantes menos escolarizados – daí serem tão ineficientes. O objetivo número 1 é manter o aluno pagante. Que ninguém espere entrar numa faculdade de mau ensino e concorrer a um bom emprego, porque o mercado brasileiro já sabe discernir as coisas. É notório que tais instituições formam os piores estudantes para se prestar às ocupações mais medíocres. Mas cabe observar que, mesmo mal formados, esses jovens levam vantagem sobre os outros que jamais pisaram numa universidade, ainda que tenham aprendido muito pouco em sala de aula. A lógica é típica de países em desenvolvimento, como o Brasil.

- Por que num país em desenvolvimento o diploma universitário, mesmo sendo de um curso ruim, tem tanto valor?

No Brasil, ao contrário do que ocorre em nações mais ricas, o diploma de ensino superior possui um valor independente da qualidade. Quem tem vale mais no mercado. É a realidade de um país o­nde a maioria dos jovens está ainda fora da universidade e o diploma ganha peso pela raridade. Numa seleção de emprego, entre dois candidatos parecidos, uma empresa vai dar preferência, naturalmente, ao que conseguiu chegar ao ensino superior. Mas é preciso que se repita: eles servirão a uma classe de empregos bem medíocres – jamais estarão na disputa pelas melhores vagas ofertadas no mercado de trabalho.

- A tendência é que o mercado se encarregue de eliminar as faculdades ruins?

A experiência mostra que, conforme a população se torna mais escolarizada e o mercado de trabalho mais exigente, as faculdades ruins passam a ser menos procuradas e uma parte delas acaba desaparecendo do mapa. Isso já foi comprovado num levantamento feito com base no antigo Provão. Ao jogar luz nas instituições que haviam acumulado notas vermelhas, o exame contribuiu decisivamente para o seu fracasso. O fato de o MEC intervir num curso que, testado mais de uma vez, não apresente sinais de melhora também é uma medida sensata. O mau ensino, afinal, é um grande desserviço.

- A senhora fecharia as faculdades de pedagogia se pudesse?

Acho que elas precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. Não é preciso ir tão longe para entender por quê. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama atenção por uma razão para lá de negativa. Está sempre entre os piores países do mundo em educação.

FONTE: IDEA.

Taxa de suicídios aumenta 30% em Brasília

30 de outubro de 2011

“Tentei me matar, mas não consegui. Hoje, venci a depressão e adoro estar vivo”. Assim como John (nome fictício), 23 anos, muitas pessoas que desenvolvem o quadro de depressão profunda acabam vendo, no suicídio, a única forma de se livrar da dor.

Mas nem sempre aqueles problemas que parecem não ter solução são a causa do sofrimento, e muitos nem mesmo sabem disso. Felizmente, a maioria acaba descobrindo em tempo.

Só este ano, o Corpo de Bombeiros do DF conseguiu evitar que 886 pessoas tirassem a própria vida. Dados mais recentes da Secretaria de Saúde mostram que, no ano passado, 133 pessoas cometeram suicídio – um índice que é 30% superior ao levantamento de 2007.

Especialistas afirmam que, mesmo quando a pessoa chega ao estágio em que a morte parece ser a melhor opção, ainda é possível trabalhar a dor, se livrar do sofrimento e dar a volta por cima.

FONTE: clicabrasília.

Émile Durkheim e a Ciência da Moral

9 de outubro de 2011

Dissertação defendida por Raquel Weiss em Janeiro de 2006 para obtenção de título de mestre em Sociologia pela USP. Discute o projeto de Émile Durkheim de criação de uma ciência da moral.

A DISCUSSÃO DESENVOLVIDA nesta dissertação tem como tema o debate de Émile Durkheim com a Filosofia Moral de sua época, mais especificamente, com as vertentes kantiana e utilitarista. O problema analisado é a natureza desse debate – ontológica e epistemológica –, bem como sua centralidade no processo de formulação dos fundamentos conceituais e metodológicos necessários à investigação científica da moral – um dos principais objetos de sua sociologia. A idéia a ser defendida neste trabalho é a de que esse debate filosófico foi indispensável na formulação da teoria sociológica durkheimiana. Conseqüentemente, é igualmente indispensável estudá-lo mais detidamente para que seja possível a compreensão devida do pensamento desse autor.

Com tal perspectiva, há três objetivos que orientam a dicussão. Em primeiro lugar, tentarei evidenciar que essa polêmica teve como eixo central uma disputa essencialmente filosófica, travada no terreno lógico-conceitual. Em segundo lugar, procurarei mostrar que, além do caráter nitidamente filosófico desse debate, as próprias bases da teoria objetiva da moral elaboradas por Durkheim são profundamente marcadas por preocupações igualmente filosóficas, envolvendo a construção lógica do conceito e sua fundamentação – ontologia –, de uma parte, e, de outra, a apresentação das condições de seu conhecimento verdadeiro – ou sua epistemologia. Finalmente, em terceiro lugar, procurarei mostrar que o estudo científico da moral, tal como reivindicado por Durkheim, com o emprego do método indutivo e das regras práticas de observação, só foi possível mediante esse debate filosófico, com a conseqüente inversão da concepção e da perspectiva até então predominantes. Nesse caso, conforme discutirei, ele não apenas inverteu sua lógica semântica, como, também, o lugar de sua gênese enquanto fenômeno real.

Para a consecução desses objetivos, a discussão que se segue está organizada do seguinte modo. Logo a seguir, na introdução, procurarei contextualizar e delimitar o problema, além de justificar a importância de estudá-lo mais detidamente. No capítulo 1, desenvolverei uma análise do debate de Durkheim com as filosofias morais kantiana e utilitarista, focalizando a caracterização geral que o autor fez a respeito dessas teorias, bem como suas principais objeções a cada uma delas.

No capítulo 2, explorarei a posição do próprio autor em relação a essas mesmas questões, procurando analisar de que maneira ele construiu uma concepção alternativa àquelas predominantes. Conforme procurarei evidenciar, ele desenvolveu seus argumentos em duas dimensões – a ontológica e a epistemológica. Com relação à dimensão ontológica, que compreende as discussões dos elementos definidores da moral, veremos com maior detalhe o que Durkheim entendia por “dever” e “bem” enquanto características constitutivas da moral, assim como sua concepção de que sua base original é a própria sociedade. No que tange à dimensão epistemológica, serão sintetizadas as justificativas que o autor apresentou em defesa da indução como único princípio de inferências válido para o conhecimento científico do objeto moral.

Uma vez fundamentada a inversão teórica no conceito de moral e justificada sua abordagem por meio do método indutivo, estava aberto o caminho para investigá-la como um fenômeno objetivo e exterior aos indivíduos; contundo, faltava ainda sistematizar uma metodologia condizente com todo o arcabouço teórico já desenhado e com o objeto tal como este fora concebido. Faltava, portanto, estabelecer os procedimentos, o “algoritmo”, as “regras” de investigação, contemplando a observação, a experimentação, a mensuração e a generalização empírica. Este é, pois, o tema sobre o qual versa o terceiro capítulo: o arranjo metodológico elaborado pelo autor que deveria servir à invetigação empírica dos fatos morais.

Por último, na conclusão, retomarei o problema geral proposto neste trabalho, obviamente à luz da discussão realizada ao longo dos três capítulos já mencionados, com a intenção de defender a validade teórica – e mesmo empírica, dado que os trechos citados podem ser tomados como evidência empírica – da proposição central desta dissertação, qual seja, a de que o debate filosófico em torno do problema da moral e dos própios aspectos filosóficos de sua teoria foram indispensável ao processo de constituição de sua Sociologia.

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A teoria ainda importa

9 de outubro de 2011

Escrito por Raquel Weiss.

Durante os últimos meses tive a ocasião de participar de diversos eventos acadêmicos na área de ciências humanas, nos quais assisti à divulgação de resultados de pesquisas sobre diferentes temas e de pesquisadores de diferentes níveis [graduação, mestrado, doutorado...] e de diferentes instituições [públicas e privadas]. De todas as coisas que ouvi, algo me chamou muito a atenção. Salvo algumas felizes exceções, os trabalhos de pesquisa científica parecem constituir-se de investigações “empíricas” sobre determinado assunto, estabelecendo, quando muito, correlações entre dois ou três fatores, ou descrevendo uma determinada situação “observada”. Depois de ouvir a descrição dos procedimentos seguidos e dos resultados obtidos, surge a grande questão: e aí? o que isso quer dizer? qual é a relevância desses dados? Geralmente a resposta, quando há uma, é tautológica, isto é, “a descoberta de que a existência de X provoca Y quer dizer que X está relacionado com Y”.

Ora, isso provavelmente não seria considerado “ciência” nem pelo mais raso de todos os positivistas… Ao que parece, por mais que as ciências humanas tenham avançado quilômetros na discussão sobre a especificidade de seu objeto, de seus procedimentos, etc., etc. etc., essas reflexões bastante refinadas ainda estão muito longe de nortear a prática científica, pois parece que cada vez mais os estudantes estão sendo treinados para depurar os seus métodos e técnicas e estão deixando de lado algo que sempre foi um elemento distintivo das ciências humanas, qual seja, a referência teórica. Agora dirijo a discussão mais diretamente ao caso das ciências sociais, área na qual me formei e em que agora atuo como pesquisadora e docente.

O que gostaria de fazer aqui é apenas de reafirmar o óbvio: os semestres dedicados aos clássicos, ou mesmo às teorias contemporâneas, não servem ao propósito de “encher linguiça”, ou “dar um pouco de erudição”. Se temos um, dois, três, quatro ou mais semestres dedicados ao ensino da teoria, é porque as ciências sociais – todas as três – constituíram-se como disciplinas que têm a pretensão de explicar ou compreender o mundo [ainda depende do paradigma epistemológico], e isso só é possível de ser feito no contexto de uma teoria, isto é, de um conjunto de ideias a respeito de como as coisas são ou deveriam ser, de quais as conexões são de fato relevantes, sobre o que importa conhecer e por que. Caso contrário, tudo o que se tem são massas de dados, dados estes que são apenas um dos elementos da formulação de uma explicação sobre algo.

Enfim, por mais óbvio que tudo isso pareça ao leitor bem treinado na prática da pesquisa sociológica, antropológica, etc., não se trata exatamente de uma obviedade na prática, pois se assim o fosse, certamente estaríamos vendo pesquisas de melhor qualidade, que diriam coisas mais relevantes e consistentes sobre o universo social. Mas a questão não pára por aqui. Dizer que a teoria importa não implica apenas reconhecer que os alunos precisam de uma formação teórica, ou que uma pesquisa bem fundamentada precisa operar no âmbito de um referencial teórico. Implica, mais do que isso, reconhecer a relevância de estudos que têm a teoria por objeto, ou seja, atribuir como tendo um “legítimo direito à existência” aquele tipo de investigação que se dedica a elucidar o pensamento de um autor ou de um determinado movimento, a questionar e revirar do avesso sistemas teóricos,a  refletir sobre seus limites, sobre o que de novo ainda têm a dizer sobre o mundo, e, quando possível, trazer para o debate uma nova abordagem, um novo insight, um novo modo de ver as coisas.

Sim, é claro que esta postagem é absolutamente auto-interessada. Mas, que mal há nisso? Trata-se, é claro, de tornar explícita uma convicção que norteia meus passos desde quando iniciei minha trajetória acadêmica, e que se pudesse resumir em uma frase, diria apenas “sim, a teoria importa”.

Usineiros incentivam crack para cortadores trabalharem 14 h

21 de setembro de 2011

Em algumas plantações de cana-de-açúcar no interior do Estado de São Paulo, existem alguns funcionários que, sonho de qualquer usineiro, conseguem trabalhar cerca de 14 horas por dia sem interrupção. O segredo da produtividade é pequeno, barato e cada vez mais fácil de conseguir: o crack. As consequências para o ‘superfuncionário’, porém, são conhecidas: após poucos anos, uma saúde devastada e, não raro, a morte.

Esse é um dos usos crescentes da droga que mais surpreenderam a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, da Assembleia Legislativa de São Paulo. A comissão, formada por 29 parlamentares, fez um levantamento inédito sobre a proliferação do entorpecente no Estado, e o apresentou nesta terça-feira.

Segundo o deputado estadual Donisete Braga (PT), as regiões onde a prática é mais comum são Ribeirão Preto, Vale do Ribeira, Pontal, São José do Rio Preto e Alta Paulista, onde há forte indústria sucroalcooleira. “Os funcionários fazem uso da droga para agregar valor físico e aumentar a produção”, explicou, acrescentando que, em geral, os trabalhadores são pagos pela produtividade. “Após quatro ou cinco anos, são afastados, demitidos.” Como a maioria não possui vínculo formal de trabalho, os trabalhadores nada recebem depois da prestação do serviço, e resta-lhes apenas a saúde debilitada pelo crack.

“Há uma liberação do consumo de crack por parte das usinas”, afirmou Braga. “Essa prática acontece com plena conivência dos empresários e das autoridades”, completou o deputado Major Olímpio (PDT-SP).

As informações compiladas pelo levantamento, afirmou Braga, são o primeiro passo para acabar com essa situação. Segundo o parlamentar, a partir delas será possível fiscalizar e acompanhar o uso da droga no Estado, e definir ações de erradicação. A pesquisa feita pela Assembleia abordou políticas públicas, investimentos e programasde combate a drogas, e foi respondida por 325 dos 645 municípios do Estado, que concentram 76% da população.

FONTE: Terra.

Antropologia é ciência?

19 de setembro de 2011

Escrito por Luiz Fernando Dias Duarte.

No começo de dezembro de 2010, um artigo publicado no The New York Times com o mesmo título acima desencadeava uma polêmica internacional. O texto foi escrito a partir da constatação de que um documento programático da prestigiosa Associação Antropológica Americana (AAA) deixava de mencionar a categoria ‘ciência’ entre os objetivos da associação e levantava diversas dúvidas sobre o sentido dessa decisão, umas mais políticas, outras mais epistemológicas.

A posterior declaração oficial da associação de que não tinha havido uma intenção específica para a controversa ausência não amainou a celeuma.

A questão que aí se apresenta não é específica da antropologia, nem do conjunto das ciências humanas, mas abrange todo o empreendimento em que se construiu a ambição de um conhecimento objetivo, não mediado e sistematicamente controlado sobre a chamada ‘realidade’.

O projeto iluminista de esclarecimento racional universal baseado na redução e controle das circunstâncias empíricas dos fenômenos naturais começou a se institucionalizar no século 17, sobretudo a partir da poderosa obra do físico e matemático inglês Isaac Newton (1643-1727).

E hoje permanece mais vivo do que nunca, alimentado pelo crescente poderio da tecnologia derivada das ciências naturais e pela ambição de uma autonomização ilimitada da experiência humana em relação às condições originárias da espécie.

Ocorre, porém, que, desde muito cedo, levantou-se no Ocidente uma dúvida e reação a esse projeto. Essa reação, que se pode englobar sob a rubrica de uma filosofia romântica, ponderava que a experiência humana era muito mais complexa e mediada do que a da simples matéria, mesmo que não se considerasse necessário recorrer a concepções de cunho religioso, sobrenatural ou extraordinário.

A mediação pela percepção subjetiva se impunha como limitação constante à ambição de um conhecimento puramente objetivo e também como condição para uma verdadeira e profunda compreensão das condições e do sentido da presença humana no mundo.

O nascimento das ciências humanas

As ciências humanas nasceram ao longo do século 19 como resultado da tensa imbricação entre o empenho iluminista e a pulsão romântica.

A antropologia, desde o seu início, apresenta os sinais dessa tensão de modo paradigmático, já que compõe um leque amplo de investimentos de conhecimento e compreensão, influenciados pelas diversas correntes filosóficas da modernidade, e em confronto com os mais variados sistemas simbólicos alternativos.

Esse leque sempre abrangeu desde propostas mais ‘positivistas’ (que valorizavam o cientificismo), como as que se acredita serem características do sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) ou do cientista social britânico Alfred Radcliffe-Brown (1881-1955), até propostas mais ‘interpretativas’, simbólicas, como as do sociólogo e economista político alemão Max Weber (1864-1920), do antropólogo britânico Edward Evans-Pritchard (1902-1973), do antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926-2006) ou, mais recentemente, as do antropólogo estadunidense Marshall Sahlins (1930-).

Mas a tensão está presente no interior de cada corrente, de cada obra. O antropólogo polaco-britânico Bronislaw Malinowski (1884-1942) tanto pode ser considerado um defensor de uma visão materialista, objetivista da tarefa antropológica, como o fundador do grande marco da metodologia compreensiva: o ‘trabalho de campo’, em que a mediação subjetiva não é um obstáculo, mas a condição mesma do saber antropológico.

O filósofo e economista alemão Karl Marx (1818-1883), o antropólogo germano-americano Franz Boas (1858-1942), o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), todos os grandes inspiradores da reflexão antropológica apresentam sinais de uma disposição de esclarecimento objetivo entrelaçados com a consciência e explicitação das condições de significação em que a ação e o pensamento humanos se atualizam.

Menciono aqui apenas os clássicos, mas a tensão continua a articular todos os grandes pensadores contemporâneos, tanto mais porque as condições atuais de atividade dos antropólogos vêm favorecendo a adoção de perspectivas mais ‘românticas’, em face dos efeitos destrutivos do projeto iluminista que se alastram por todo o planeta.

A antropologia se construiu pelo diálogo com a alteridade cultural, por meio de uma complexa trama de hipóteses, modelos e interpretações que tem reiteradamente reforçado a desconfiança da máquina de achatamento do mundo implicado pela via iluminista, ‘reducionista’, ‘epifenomenista’, desenvolvimentista.

Racionalidade X subjetividade

É, assim, apenas mais um movimento dessa tensão constitutiva o fato de a AAA descrever sua tarefa como a de ‘promover a compreensão pública da humanidade’.

A locução é muito interessante. O verbo em inglês é ‘to advance’, absolutamente característico do projeto iluminista – e, portanto, científico. Seu objeto é ‘understanding’, que traduz normalmente em inglês a grande categoria romântica da ‘compreensão’ (Weber é particularmente conhecido pelo seu ‘método compreensivo’ – o Verstehen alemão).

E os complementos retornam ao argumento iluminista, sublinhando que deve ser algo ‘público’, a serviço de uma ‘humanidade’ – categorias igualmente constituídas no horizonte de afirmação da racionalidade moderna.

Não há, portanto, muito com o que se preocupar. A antropologia continuará a ser uma ‘ciência’ e um ‘saber’, estratégia de conhecimento e meio de compreensão. Manter essa tensão nunca foi fácil e continuará não sendo; como um grave desafio para cada antropólogo e para toda a comunidade dos que assim se consideram.

Alguns, como os “critical anthropologists” citados na denúncia do programa da AAA feita pelo NYT, desejarão que a disciplina seja menos objetivista em nome da assunção da defesa dos interesses de seus interlocutores mais frágeis ou subordinados. Outros, como os “pós-modernos”, desejarão que seja menos objetivista em nome do caráter radicalmente dialogal, interconstruído, de que qualquer saber sobre o humano se revestiria.

Mas afinal, ainda assim, todos estarão de algum modo respondendo à demanda de um ‘avanço’, de uma iluminação, mesmo que paradoxal. Ninguém propugna um encerramento da tarefa de conhecer ou compreender. E talvez a característica mais profunda da ciência seja essa, a de não se resignar com o já sabido, de desconfiar das convenções vigentes e sempre ambicionar mais luz.

A preocupação deve ser ainda menor porque os cientistas ditos “hard” há muito vêm se questionando sobre diversas facetas do projeto iluminista que os constituiu e que os sustenta fundamentalmente.

Mais ou menos próximos de fórmulas ‘românticas’, físicos, biólogos, médicos, matemáticos inquirem-se também sobre o que quer dizer ‘ciência’, ‘matéria’, ‘realidade’, sem que precisem banir essas intrigantes categorias dos programas de suas sociedades. O reconhecimento da mediação subjetiva, seja no plano da própria produção do conhecimento, seja no das implicações sociais do conhecimento científico, tende a se generalizar em todas as áreas.

Se a preocupação não deve ser grande, o interesse de compreender a presente polêmica é enorme, no entanto. Porque, mesmo que reitere um movimento de longo alcance histórico, emerge de uma forma específica neste tempo específico – e é assim sintoma dos agenciamentos de significação que hoje nos cercam. Uma questão de sentido, certamente; mas não apenas da antropologia.

FONTE: Instituto Ciência Hoje.

Chineses e hispânicos compartilham igreja a contragosto em Nova York

18 de setembro de 2011

A Igreja Metodista Unida, no bairro de Sunset Park, no Brooklyn, é tudo, menos unida.

Dois pastores pregam do mesmo púlpito e moram na mesma residência paroquial, mas mal se falam e criticam abertamente a abordagem da fé um do outro.

Na ala social da igreja, dois grupos espiam um ao outro, desconfiados – um termina a refeição de arroz com feijão, enquanto o outro prepara frango asiático.

Duas congregações bem diferentes dividem o mesmo prédio: um pequeno edifício com cerca de 30 pessoas que falam espanhol e rezam aqui há décadas e uma multidão novata de mais de mil imigrantes chineses que aumenta toda semana – a congregação metodista que mais cresce em Nova York.

Os latinos dizem se sentir oprimidos e sob ameaça, enquanto os chineses, que são os locadores, afirmam se sentir reprimidos e subestimados. Mediadores foram enviados, mas com pouco sucesso. Na temporada de final de ano, houve até duas árvores de Natal.

“Este pastor é muito grosso conosco”, disse o reverendo Zhaodeng Peng, que lidera a congregação chinesa com a esposa.

O reverendo Hector Laporta, líder da igreja latina, respondeu: “Ele realmente tem um problema com a raiva.”

Esse impasse reflete um cabo de guerra que ocorre há várias gerações em Nova York, onde grupos de imigrantes -alguns estabelecidos, outros recém-chegados- se acotovelam em calçadas lotadas e em moradias apertadas, disputando espaço, casa e emprego.

Agora, essa luta está chegando até os silenciosos santuários das igrejas, à medida que congregações com restrições financeiras -especialmente aquelas de denominações mais populares, como as metodistas- encontram solução no compartilhamento do espaço. No Queens, uma igreja metodista dividida entre congregações latino-americanas e caribenhas acaba de dar espaço a uma pequena congregação paquistanesa.

Como colegas de quarto de qualquer lugar do mundo, os grupos metodistas que dividem o espaço entram em conflito quanto a banheiros sujos, música alta e luzes acesas, disse o reverendo Kenny Yi, coordenador do distrito da congregação que tentou intermediar a disputa em Sunset Park.

A igreja, construída há mais de um século por imigrantes noruegueses, oferece muita oportunidade para tensões. Há a barreira do idioma: poucos chineses falam inglês, e menos ainda falam espanhol. O espaço é apertado e precisa de reparos, e cada grupo tem uma missão diferente.

Laporta, de 55 anos, vem de uma tradição religiosa de ação social. Ele participar de reuniões para o controle do aluguel e pede a reforma da imigração em seus sermos. Laporta diz que Peng ignora o problema dos imigrantes ilegais em sua congregação.

Peng, de 48 anos, foca mais nos livros sagrados.

“As pessoas precisam da palavra de Deus”, ele disse.

Peng argumenta que Laporta deixa seus membros com fome espiritual.

“Se a congregação precisa aprender política, pode ler o jornal”, disse Peng. “É por isso que a congregação não cresce.”

No meio estão Yi e outros membros da metodista, que devem decidir se mantêm a situação atual, intranquila, ou levam a congregação latina para outro local e dão o prédio a Peng e sua esposa e co-pastora, a reverenda Qibi She.

“Estamos apelando para Deus, para ver em que direção Ele aponta as duas congregações”, disse Yi. “Descobriremos mais cedo ou mais tarde.”

Enquanto isso, altos membros da metodista vêm tentando interferir no processo. Em 2009, Yi trouxe um mediador de fora, Kenneth J. Guest, professor de antropologia da Baruch College que estuda a religião em Chinatown, Nova York.
Guest ajudou a intermediar um contrato que estabelecia regras básicas: a igreja dos latinos teria uso exclusivo do hall social aos domingos das 12h30 às 14h. A congregação chinesa usaria o local das 14h às 19h. Nenhum dos grupos interromperia os sermos do outro.

Não funcionou. Recentemente, Laporta pegou o contrato e apontou para cada compromisso que, segundo ele, os chineses tinham violado. Eram muitos.
“Eles não seguem nenhuma regra”, disse Laporta, com a voz cheia de resignação.

Peng contou que a igreja atraía tantos novos chineses que muitas pessoas não sabiam das regras.

A vizinhança do lado de fora, um dos bairros mais vibrantes da cidade, de alguma forma reflete a divisão da igreja. Uma rua abriga barraquinhas de taco, bodegas equatorianas e igrejas mexicanas -enquanto na parte de cima vemos mercados de peixe e lojas de remédios de ginseng formando Chinatown.

Nos últimos anos, as empresas chinesas têm se expandido, chegando até o local da igreja. A população chinesa da área cresceu de 24 mil, no ano 2000, para 31 mil em 2009, de acordo com dados do censo.

“Eles estão por toda parte”, disse Laporta, nascido no Peru. “O que acontece aqui é o mesmo que acontece lá fora.”

A congregação latina está no prédio há cerca de 30 anos, mas diminuiu bastante passou de 60 membros para pouco menos da metade. Há seis anos a congregação começou a alugar o local para o grupo chinês.

A igreja chinesa paga a Laporta cerca de US$ 50 mil em aluguel, mais do dobro do que a congregação hispânica tem conseguido arrecadar por sua própria conta. Peng disse que pagaria mais de bom grado, e ajudaria a consertar a igreja desgastada, se pudesse expandir para o porão.

“Eles têm um prédio enorme, mas poucas pessoas”, disse Peng. “Temos as pessoas, mas não o prédio.”

FONTE: G1.

Redes sociais estão deixando as pessoas ‘menos humanas’, diz socióloga

18 de setembro de 2011

Estive na Campus Party 2011 e pude notar como, muitas vezes, a comunicação entre indivíduos que estavam relativamente próximos era feita através de comunicadores online. No evento, a conexão ultraveloz e a tecnologia eram os destaques. Então, era de se esperar que o fenômeno ocorresse. Mas não é difícil encontrar exatamente a mesma forma de interação em escritórios e até mesmo em residências.

Até que ponto isso pode ser negativo?

Sherry Turkle, socióloga e professora MIT (Massachusetts Institute of Technology), afirma, em seu mais recente livro, “Alone Together” (ainda sem tradução para o português), que esse tipo de comunicação está deixando as pessoas “menos humanas”. Ela explica que indivíduos estão se tornando mais isolados e menos comunicativos.

A socióloga ainda propõe a tese de que as redes sociais criam uma ilusão de que podemos nos comunicar melhor, mas que as interações humanas na “cyber-realidade” são uma reprodução pobre do mundo real: “O comportamento que se tornou típico era algo que antes víamos como patológico. Nós inventamos tecnologias incríveis, mas também permitimos que ela nos diminua”, completa.

São fatos isolados, mas o caso da mulher que anunciou suicídio no Facebook, e nenhum dos “amigos” tentou ajudá-la, nos faz refletir.

FONTE: UOL Tecnologia.


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